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Segunda-feira, 03.11.08

Retrato de Família – 21

Por Ruaz Ramos

Nome: José António da Silva Pereira

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Nome: José António da Silva Pereira

Local de Nascimento: Lisboa

Data do Nascimento: 18 - 07- 1940

Profissão: Fundidor (Reformado)

Estado Civil: Casado

Filhos: Um do sexo masculino

Currículo Damista:

Mestre Nacional

Campeão Nacional - Individual (86, 88 e 91)

Campeão Nacional - Equipas (14)

Campeão Nacional – Veteranos (98 e 00)

Taça de Portugal (9)

Super-Taça (3)

Torneio do Avante (7)

Torneios Abertos (5)

Secretário Associação Distrital de Setúbal

Conseguimos finalmente o retracto de Silva Pereira, o último dos campeões nacionais e mestres que, aparte Veríssimo Dias que declinou a entrevista, faltava na nossa galeria. O encontro com o nosso entrevistado aconteceu em Setúbal cujo diálogo decorreu intercalado pelas várias sessões de uma prova. Corpulento, pescoço forte e cara larga, olhos castanhos, com estrabismo no esquerdo, cabelo grisalho, voz forte, um tanto ou quanto rude, franco e sem artifícios; é o que se pode chamar uma pessoa, tipo “pão, pão; queijo, queijo”. Apresenta ser uma pessoa calma mas é, paradoxalmente, impaciente. Enverga sempre vestuário para o prático, não abdicando dos chinelos de cabedal, às tiras, que usa para se defender das artroses que lhe tolhem o andar e não lhe permitem outro tipo de calçado. As mãos e os joelhos também estão afectados por essa doença reumática mas lá vai suportando as dores.

Gostaríamos que desse uma vaga panorâmica da sua vida e de como a tem encarado.

Nasci em Lisboa porque foi para a maternidade Alfredo da Costa que levaram a minha mãe quando entrou em trabalho de parto. Mas considero-me do Laranjeiro. O meu pai era Caldeireiro no Arsenal do Alfeite e a minha mãe era doméstica. Fui o primeiro de três filhos, todos rapazes e embora naquele tempo fossem poucos os que podiam gabar-se de viver bem, tive uma infância normal, para a época. Jogava ao peão, à carica pela borda do passeio, e também à tampinha, que consistia em colocar a face de uma tampa de caixa de fósforos sobre outra do adversário e com uma palmada seca tentar virar ambas para ganhar a do outro. Mas o que mais gostava era de andar de bicicleta. Todos os dias ia até à Trafaria, a casa da minha avó e com quarenta e cinco anos ainda praticava Ciclo – Turismo. Gostava!

E nessa praia dava saltos das rochas para a água como dantes os putos faziam?

Lá ir para a praia ia como ainda hoje faço porque me faz bem à sinusite. Mas mergulhos do cimo das rochas é que nunca dei, que eu não era maluco. Sempre tive medo da água e ainda agora nado pouco. Não deixei, no entanto, de andar de bote a remos, participando no apoio aos nadadores que faziam a travessia Trafaria - Algés. Mas mal acabei a primária comecei logo a trabalhar numa fábrica de malhas que havia ali perto e acabou-se a praia. Pelos meus quinze anos o meu pai conseguiu meter-me no Arsenal do Alfeite, como aprendiz, e fui estudar à noite para a Escola Industrial Machado de Castro, acabando por desistir quando só me faltavam dois anos para completar o curso. Foi a primeira grande asneira da minha vida…

Quer dizer que fez outras asneiras…

A outra foi não ter aceitado o conselho do Dr. Fernando Lacerda em ser operado ao meu estrabismo. Para me tentar convencer chegou a levar-me a ver uma miúda que operara e que ficara curada. Ainda por cima não pagava nada! Mas tive medo…Também fui um pouco boémio e só pensava em boites. Só me casei aos 37 anos, com uma Cabo Verdeana, e do casamento tenho um filho, para além de uma enteada. No entanto fiz bem em reformar-me aos quarenta e seis anos, aproveitando uma lei do ministro Miguel Cadilhe que dava hipótese aos trabalhadores civis das Forças Armadas de se reformarem quando perfizessem trinta anos de serviço. Agora arranjei um biscate como porteiro no Clube Recreativo do Laranjeiro. 

Então e as Damas como aconteceram?

Tinha onze anos e jogava Xadrez quando apareceu, no clube, um jogador chamado

Manuel Tavares, mais conhecido pelo Ti Manel, que já havia ensinado Damas ao Jorge Gomes Fernandes e que começou a ensinar-me também. Após uns tempos comecei a frequentar a sede do Almada Atlético Clube onde se jogava bem e conheci em simultâneo o Artur Gomes e o Medalha da Silva. Mas foi o professor Matos Marques quem mais me incentivou para a modalidade. Claro que no início comecei a apanhar tareias de todos mas o Ti Manel decidiu trazer-me alguns jogos escritos e eu a pouco e pouco comecei a dar luta. Mas o meu início de forma mais séria aconteceu no primeiro Campeonato de Almada em que participei tendo empatado com o Artur e perdido apenas o último jogo com o Medalha da Silva. Quando em 1981 se iniciaram as provas da federação entrei logo para a equipa principal de Almada e na minha estreia consegui um nulo contra o Dr. Orlando Lopes. Conheço alguma coisa da Enciclopédia Damista através do Medalha e também do Lino. Em 1986 fui Campeão Nacional em ex - aequo com o Dr. Vaz Vieira, embora com melhor coeficiente no Sonnenborn-Berger. Em 1988, na Marinha Grande, ganhei o meu segundo Campeonato e em 1991 tornei a ser Campeão Nacional numa final jogada em abertura sorteada a três lances. Entretanto comecei a integrar a equipa nos Torneios Abertos e ganhei bastantes taças. Já só guardo as dos primeiros lugares e as que acho mais originais. Tenho oferecido muitas para certos torneios.

Em competição o que mais o fascina no jogo?

De uma forma em geral do jogo em si. Prefiro jogar abertura sorteada e gosto imenso do final de jogo, se tiver tempo suficiente para pensar… Tento sempre ganhar, mesmo quando jogo com alguns jogadores da equipa. Por exemplo, o Veríssimo Dias, por princípio joga sempre a matar e eu faço o mesmo. Então com o Luís Guerra… é uma guerra que vem de longe; cada um tenta derrotar o outro. Com os outros nem tanto. Mas várias vezes tenho empatado com o Medalha da Silva por nenhum conseguir ganhar embora muitos fiquem a pensar que foi por acordo…

Quanto a si quais são os melhores jogadores e como vê o futuro da modalidade?

O Vaz Vieira é o melhor jogador de sempre mas actualmente o Victor Oliveira é o maior e é bom em tudo. Quanto ao Medalha da Silva, se tivesse o meu feitio já tinha sido campeão o dobro das vezes. Falta-lhe algum espirito de competição e agarra-se pouco. O Veríssimo é um dos grandes impulsionadores da modalidade e se houvesse muitos como ele a modalidade estava muito mais cotada. Assim, penso que daqui a uns quinze anos as Damas acabam quando a actual geração terminar. Existem alguns indivíduos mais novos que constituem uma segunda linha em que, para além do Vítor Oliveira, se destacam, no Norte, o José Carlos, o Fernando Gonçalves, o Luís Sá, e mesmo o Perfeito de Aguiar. No Centro só o João Carlos parece despontar e no Sul apenas Vítor Cunha constitui promessa. Mas é bom que tenhamos consciência que é difícil captar novos valores. O Clube do Laranjeiro prontificou-se a arranjar uma equipa e a inscrever gratuitamente os jogadores na Federação. Pois mesmo assim não se conseguiu arranjar um número mínimo de interessados. Vive-se um ritmo diferente de antigamente. Os jogadores de uma forma em geral só pensam em ganhar e nem sabem finalizar. Querem tudo para ontem e a nova geração vive paredes-meias com a droga. Tive um enteado que foi uma das suas vítimas.

Lembra-se de algum episódio acontecido nas Damas que ache interessante contar?

Há anos entrei num campeonato em Almada. Numa jornada que coincidia com afazeres da minha vida particular, decidi, para não ter falta de comparência, efectuar a partida rapidamente, oferecendo a vitória ao adversário. Como tinha planeado, perdi os dois primeiros jogos e, então, propus o empate para os restantes. Foi com grande surpresa que vi o adversário rejeitar a proposta. Fiquei perplexo e, desistindo de ir tratar dos meus assuntos, agarrei-me ao Tabuleiro e ainda consegui empatar a partida... 

PS: Silva Pereira - embora no Sul conhecido por Zé Pereira trato-o assim para não fazer confusão com outros dois damistas com esse nome – foi sempre um dos mais difíceis adversários para jogadores de qualquer calibre.

Tem a particularidade de ter sido o último entrevistado pelo Espaço Damista, corria o ano de 2002.

Desde então, e por motivos de saúde, não mais competiu oficialmente e, embora apareça por vezes nalguns Torneios Abertos, não compete.

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por lusodama às 18:05



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