Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

damas2



Segunda-feira, 05.01.09

A regra dos 20 lances e a suspensão da contagem de tempo

Por Luís Xavier

Nunca tive conhecimento que a regra dos 20 lances fosse aplicada na sua plenitude. A possibilidade de surgir um final não resolúvel pela sua aplicação é – será – tão improvável que talvez não deva ser ampliada. Tal como acontece com a regra da forçada (23º artigo, alínea b) das regras do jogo): É tão improvável a ocorrência duma dita excepção, que o legislador entendeu manter os 12 lances, imperativamente.

Assim o actual teor da regra dos 20 lances, aproximou-a da “velha lei dos 50 lances” do xadrez, pois determina o resultado dum jogo quando não é movido um peão durante muitos lances. Num e noutro jogo é sumamente importante a situação dos peões. Só a sua movimentação modifica profundamente o carácter da posição. As demais peças (no xadrez, o rei, a torre, etc. e no jogo de damas, a dama) podem sempre retornar a certa casa, reproduzindo uma dada posição.

Não esquecer que a “lei dos 20 lances” (como a equivalente no xadrez) não prejudica a “regra” da repetição de posições (alguns jogadores, erradamente, falam em “repetição de lances”), a qual permite a qualquer dos adversários reclamar o empate se demonstrar que a mesma posição foi atingida três vezes (22º artigo, alínea b) das regras do jogo), de modo seguido ou interpolado.

Também, com bom critério, se abandonou a ideia de considerar apenas aplicável a regra dos 20 lances quando o “final” contava com, no máximo 4 peças para cada lado (formulação original). Para mim sempre foi óbvio que o carácter de final não se prende apenas com o número de peças. Não será fácil estabelecer uma (consensual) definição de final, porém qualquer damista reconhece que há “fins-de-jogo” de 5 x 5, ou 4 ou 3 peças, por exemplo. E aí não seria (passou a ser!) aplicável a lei dos 20 lances. E em muitos casos era sabido que o espírito da lei impunha que aí também ela vigorasse!

Fixe-se que as regras do jogo em apenas dois casos consideram a quantidade das peças, a saber:

a) na forçada (3 damas x 1 dama)

b) na “lei da quantidade” ([...] obrigatório tomar o maior número de peças.)

Aliás, como a lei está formulada actualmente, e com bom critério, este aspecto está definitivamente resolvido. Assim, a regra dos vinte lances é de aplicação deste o primeiro lance do jogo! Tal como acontece com a regra que a inspirou, relativa ao xadrez.

A regra dos 20 lances – será importante dizê-lo – não existe para beneficiar ou prejudicar quem está em vantagem ou desvantagem. Portanto, como as boas leis é neutra e apenas pretende beneficiar o jogo, a sua correcta disputa. E sobretudo, no concreto, visa impedir o anti-jogo. Admita-se esta situação: (03), 04, 16, 24, 25 x (01), 08, 29.

Um caso claro para aplicar a “lei dos 20 lances”. Quer num jogo amigável, quer num jogo de competição.

No 1º caso não se coloca a questão do tempo; basta efectuar 20 lances... Ainda que após 16-20 tenhamos de fazer outros 20 lances.

Um jogador experimentado saberá facilmente “aguentar” o empate, bastando deslocar apropriadamente a dama no rio. Não se pode (ou deve) coarctar a possibilidade do condutor da cor em vantagem tentar a vitória.

No 2º caso repetir-se-ia a cena, ou então se o condutor das pretas, a cor na defensiva, estimasse não conseguir realizar 40 lances no tempo de jogo que lhe restava (mesmo sendo muito veloz... lembro-me de alguém meio a sério exclamar: “o segredo das damas está na rapidez”), então poderia apelar para a “suspensão da contagem do tempo” evocando o artigo 50º do Regulamento de Competições, que reza:

“Sempre que, na fase final do jogo, exista posição de empate técnico ou nítido, não aceite por um dos jogadores, poderá o outro solicitar ao árbitro que decida sobre a suspensão da contagem de tempo, até terminar o jogo, sendo válido o resultado que acontecer. Se, por qualquer motivo, o jogador que propôs o empate perder o jogo, será penalizado com o somatório do tempo consumido por si e pelo adversário. Nesta última parte, compete ao árbitro decidir do tempo a atribuir a cada jogador.”.

As situações mais críticas e difíceis de ajuizar serão as que não se enquadram naquela expressão “empate nítido ou técnico”. Admita-se algo do género: 01, 09, (16), 17 x (04), 24, 31.

Poderão as pretas fazer vingar a tese de que se trata dum “empate nítido”, logo pôr-se ao abrigo do artigo 50º do Regulamento de Competições? A minha resposta é não. Penso que é óbvio que este final terá um desfecho consoante os contendores e, ou, as respectivas motivações. Os jogadores deverão realizar 20 lances no decorrer dos quais se tornará evidente se as brancas pretendem ganhar no tabuleiro ou “abusar do relógio”. E neste último caso justifica-se a “suspensão da contagem do tempo”.

Alguém poderá dizer que as pretas podem perder por “nem sequer” terem tempo de jogar os “tais vinte lances”. Então deverão queixar-se da “lentidão” anteriormente exibida e não das regras!

20 lancesII.jpg

O jogo é composto duma parte material (tabuleiro e peças) e outra imaterial (tempo). E é da conveniente gestão de ambas que se consegue, ou não, um resultado satisfatório (espera-se). Se um jogador consegue notória vantagem temporal sobre o seu adversário, digamos no decurso dos três primeiros jogos da partida, não será de admirar que acabe por vencer. O perdedor terá apenas de se queixar de si próprio. Ou por ter sido lento, ou porque o adversário lhe colocou problemas que o levaram a despender exagerado tempo de reflexão.

O tempo é importante, sumamente decisivo. Não fosse ele computado e não haveria vencidos nem vencedores!

Mas o artigo 50º do Regulamento de Competições também encerra outras disposições que convirá vincar.

Obtida a decisão de suspender a contagem do tempo (atenção esta norma é aplicável a qualquer jogo da partida e não só ao último como por vezes julgo ser do entendimento geral), ao árbitro cabe atribuir a cada jogador um dado lapso de tempo. E fá-lo, em princípio, igualitariamente e em função da complexidade do final a ser jogado.  

É bom de ver que este final: (01), 04 x 08, (09), (16), 25 é mais fácil de defender que este: 16, 24, (31) x (01), (09), (17).

No primeiro as brancas apenas têm se saber esquivar a uma “marosca”. De resto movimentando-se, mais ou menos à-vontade, no rio têm garantido o empate. Procurando vencer, as pretas, o melhor que podem tentar (mas não forçar) é a tal “marosca”, a saber: (?), 04 x (06), 08, (18), 25. As brancas só perdem se neste momento tiverem a dama na #32 e lhes couber jogar. Isto foi visto há mais de 4 séculos pelo tratadista Pedro Ruiz Montero. Não é muito difícil calcular por onde deve andar a dama no rio para evitar o “desastre”, ainda assim é necessária alguma atenção. Admita-se este fim-de-jogo: 04, (16) x 06, 08, (18), 25 JB.

O empate é por 16-23 (claro que é imperioso tomar o rio), 6-2; 23-10! Etc E. Também servia 16-3, 6-2; 3-10. Também nesta situação se o lance fosse das brancas as pretas ganhariam!

No tocante ao outro final é do conhecimento geral que se trata duma situação assaz complexa e que as brancas devem conhecer inúmeros detalhes para não virem a perder e terão de dispor “duns bons minutos” para se aguentarem. Claro que as pretas, idem, para lançar uma rede à dama branca.

Em todo o caso serão sempre as brancas a estar na “corda bamba”, pelo que devem ter este empate técnico bem estudado pois contra um bom conhecedor dos meandros deste final provavelmente baquearão.

      *          *          *         

Outro caso muito curioso é regulado no artigo 51º do Regulamento de Competições. Admita-se o seguinte final: 02, (03), (04), 08 x (01), 09.

É sabido que este final está tecnicamente ganho pelas brancas (atribuído a Anton Torquemada, 1547), mas é trabalhoso, demorado. E se as pretas apenas dispuserem de, digamos, um minuto para o jogar, provavelmente irão perder por tempo. Injusto dirá o leitor. Foi precisamente para impedir essa injustiça que o legislador imaginou o teor do artigo 51º do Regulamento de Competições, que reza:

“Sempre que, na fase final do jogo, exista nítida vantagem por parte de um dos jogadores e o adversário não aceite proposta de empate, poderá o interessado solicitar ao árbitro que decida sobre a suspensão da contagem de tempo, até terminar o jogo, sendo válido o resultado que acontecer. Compete ao árbitro decidir do tempo a atribuir a cada jogador.”.

Na presença do árbitro o condutor das pretas será confrontado com a proposta de empate do adversário, e caso não aceite só terá a perder, pois o árbitro decidirá pela suspensão da contagem do tempo, atribuirá um lapso de tempo a cada jogador, etc... e as brancas arriscam-se a perder o jogo!

      *          *          *         

Embora a disposição momentânea, a emoção, a motivação, tenham enorme peso no desenrolar do jogo, quer-se contudo que ele seja conduzido sob o império do raciocínio frio, do cálculo sereno, num ambiente sossegado. E no entanto... Mas ainda que todos concorram para o bom andamento de qualquer prova, sempre haverá uma ou outra “ovelha negra”. Por mais leis, regulamentos e regras que se possam inventar e por mais rigorosa que seja redacção dos mesmos, quando alguém quiser arranjar confusão sempre conseguirá. Mas ainda que o consiga, caso os demais competidores estejam e (devem estar!) bem elucidados, bem conhecedores, das regras, consegue-o sem fazer grandes estragos e certamente que ficará marcado.

Também não raras vezes o honesto jogador pode sentir-se defraudado porque não soube defender os seus legítimos direitos. É imperioso que conheça pelo menos o que de mais importante está consignado nos regulamentos, a começar obviamente pelas regras do jogo de damas! E só então terá consciência de que o “azar” se deveu à sua atitude, deixando de tender a pensar que foi injustiçado.

Portanto, nas competições (sérias ou para distrair), é necessário (e importante!) saber manobrar as peças, controlar o relógio e conhecer as regras!

Ajudará também, ganhar com elegância e perder com bonomia. Juntando -se tudo têm-se um desportista com quem os outros gostarão de conviver e jogar!

Autoria e outros dados (tags, etc)

por lusodama às 14:29



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Janeiro 2009

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031